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12.8.08
Tudo o que eu acho



Talvez as coisas não sejam bem como eu pensei. E as pessoas não sejam tão más quanto eu sentia. E o mundo não esteja tão perdido ou tão achado, tão desconhecido. Em poucas linhas eu posso dizer tudo que acho sobre ao menos o que vivi no dia de hoje. E é tudo tão bonito quanto poderia ser. É realmente lindo, sentar em uma calçada e sentir-se parte de algo maior. O que acho hoje é certamente diferente, do que acharei amanhã, mas sempre foi assim. Vivo de momentos esquecíveis, com a única certeza de que o presente é um belo presente.


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4.8.08

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28.7.08
Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector

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23.7.08
Versa

A vida não pára de acontecer. Mesmo quando não queremos que prossiga. As coisas não param de acontecer.

Tenho maior medo da solidão que da morte. Embora me sobrem poucas coisas pra contar nessa noite bonita, o que mais me chama atenção são as oportunidades que temos. Oportunidades que fazemos para nós. Presentes que fazemos a nós mesmos, embalados em papel vermelho bordô.

Quem diz que faz feira num domingo ensolarado por prazer. Mente.

Ninguém liga se nós, quando estivermos sós, pensarmos coisas feias. Ninguém sente a dor que nós sentimos a não ser que arranjemos um modo de mostrar. Virar-nos do avesso. Vice-versear a nossa história.

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16.7.08
O querer


Querer é a expectativa que move um corpo ao ato. Um corpo ao outro. Um tato, um ato. Querer é poder tentar o que se deseja, insiste a vontade, um ardor irrequieto que atormenta a mente e faz a pele ameaçar assobios. É estar ciente daquilo que se precisa. Ou estar ausente daquilo que se quer sem se saber por quê. É objeto, é olho, um alvo. Um acordo, entre você e o gosto. O sabor de querer é cítrico. É solidão. Porque só se quer, ao não ter. E só se tem, aquilo que antes requerido fosse, senão outro modo; querer é viver.

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15.7.08


doce caro
Um dia após o outro apagara as lembranças nítidas daquelas surpresas que ele não me fazia, mas que pra mim ali estavam. Agora a casa vazia me diz que eu não sou um único, um tolo, mas um choro muito bonito de contentamento. É assim para todos, cada qual procurando da sua felicidade, do seu tipo de felicidade, seja ele belo ou torto aos olhos dos outros que vêem. Todos continuarão vivendo, mesmo após todas as frustrações, todas as incertezas e todos os males bem feitos. Tentando das suas sortes, fugindo da morte, roubando sorrisos, beijos e doces. Em suas casas empilhadas lado a lado, baixando as cabeças na calçada, olhares confusos que falam mais do que um livro inteiro. Uma vida inteira de sorriso e mágoa que se confundem a ponto de não se discernir o que fez bem ou mal. O fato é que a vida é. E simplesmente é.

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Motivos
Ele se encostou na parede, para aliviar o peso das pernas. Olhando o relógio e coçando o cotovelo. Às vezes dava algumas tossidas com a mão na boca, disfarçando o barulho. Ficou ali durante um bom tempo. Braços cruzados sobre a camisa de lã vinho. Eu não sabia se esperava alguém, se passava o tempo, ou se queria ser observado. Enquanto o tempo passava, ele checava se os cadarços estavam amarrados, tirava fiapos de linha da camisa, olhava o pombo no poste. Por algum motivo ele se levantou. Olhou novamente para o relógio, se recostando no mesmo espaço requentado da parede, como quem diz... te enganei...

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14.7.08


O dia seguinte

Eu acordei e olhei pros lados como quem procura só por garantia, na esperança de encontrar o que não se tem. O quarto vazio, a casa vazia, ninguém por perto pra me dizer bom dia. Uma manhã inteira só pra mim. Fui à cozinha, fiz o típico chá de maçã e sentei na janela da área de serviço, encostado na mureta. Com um casaco creme, um short azul claro indecente, calçando as eternas pantufas que roubei da tia anos atrás. Pela manhã meus pés congelam. Os dela não. De lá eu vejo todo o prédio em frente, e é de lá que eu sonho. Eu sonho longe. O sol me bate a testa, leve, me aquece o corpo. Leve. Ali, sentado, eu planejo o dia. E sempre, nada sai como pensado. Felizmente.
Eu já não sei do que mais eu preciso. Muito provavelmente, se eu der o devido valor às coisas bobas e amigos que eu já tenho, eu não precise de mais nada. Tudo que for além, será o meu céu.


Imagens do filme As Pontes de Madison, recomendo.

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9.7.08
Valsa Brasileira
Chico Buarque

Vivia a te buscar
Porque pensando em ti
Corria contra o tempo
Eu descartava os dias
Em que não te vi
Como de um filme
A ação que não valeu
Rodava as horas pra trás
Roubava um pouquinho
E ajeitava o meu caminho
Pra encostar no teu

Subia na montanha
Não como anda um corpo
Mas um sentimento
Eu surpreendia o sol
Antes do sol raiar
Saltava as noites
Sem me refazer
E pela porta de trás
Da casa vazia
Eu ingressaria
E te veria
Confusa por me ver
Chegando assim
Mil dias antes de te conhecer



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7.7.08
mesmo que por alguns minutos



Pode parecer besteira, mas eu estou feliz. Mesmo que por dois minutos, esse clima de esperança que me explora o peito é muito bom de se sentir e merece uma anotação. Eu que já desde sempre me facilitei a sentir as dores de um mundo que nem sabe quem eu sou, hoje num dia que começou complicado e agora se simplificou, digo que, não há coisa melhor do que a sensação do gostar.

Eu aproveito essa faísca de bobagem, esses minutos do agradável e escrevo aqui como num testamento que me provará num futuro próximo que eu estive feliz por algum tempo e que fiz o máximo para prolongar a sensação em mim, e nos outros. Tomara mesmo que as minhas esperanças não sejam tão tolas quanto o meu sorriso. Dá um baita trabalhão me convencer num acaso que tudo está bem novamente. Quem dirá fazê-lo duas vezes. Tomara. Tomara. Que dessa vez aconteça o certo.

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